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Gases do efeito estufa, temperatura e a civilização

Por: Marcos Silveira Buckeridge

Desde o início da tomada de dados precisos de temperatura no planeta, 1988 foi assinalado como um ano em que o nível máximo de temperatura bateu o recorde. Naquele ano, verificou-se não somente que ele teria sido um ano atípico, mas também que a década de 80 tinha apresentado um comportamento, em relação à temperatura, nunca antes visto. Esta primeira detecção de aumento de temperatura foi de apenas meio grau centígrado e os cientistas da Universidade de East Anglia em Norwish na Inglaterra, afirmavam que a década de 80 tinha sido a década mais quente dos últimos 100 anos.
Bem, meio grau é realmente muito pouco e nós quase nem conseguimos sentir uma diferença muito grande, especialmente aqui nos trópicos, onde a temperatura pode variar mais de 10 oC em um único dia. Por isto, houve muita crítica e especulação até que, em agosto de 1981, o grupo do pesquisador James Hansen, de um dos Institutos da NASA, publicou um trabalho na revista Science onde foram apresentados dados consistentes demonstrando os aumentos de temperatura em todo o planeta e não em uma região específica, como havia sido mostrado pelo grupo de East Anglia. Porém, um problema com os dados do grupo de Hansen era que eles tinham grande quantidade de informação sobre as variações de temperatura no hemisfério norte, mas relativamente muito pouco sobre o hemisfério sul.
Além de mostrar que 1980 tinha sido um dos anos mais quentes em relação aos 100 anos anteriores, os dados de Hansen também mostravam que as temperaturas médias haviam declinado entre 1984 e 1985. Os climatologistas explicam esta queda dizendo que ela poderia ter ocorrido devido à erupções vulcânicas que, ao jogarem materiais particulados na estratosfera provocam um resfriamento global devido a interferência que estes materiais exercem à penetração da radiação na atmosfera. Esta explicação poderia ser corroborada, por exemplo, pela erupção do vulcão El Chichón, na América do sul em 1982 e, além disso, um fenômeno similar já havia sido visto após a erupção do vulcão Krakatoa em 1880.
No fim, Hansen e seu grupo pareciam estar certos e a temperatura média estava realmente aumentando de forma linear. Ele voltou à prancheta em 1987 e verificou que a erupção do El Chichón realmente tinha provocado um resfriamento transitório de uns dois anos. Com isso, hoje podemos voltar ao artigo de Hansen de 1981 e considerá-lo provavelmente como os primeiros a reconhecer que um aquecimento fora do normal estava acontecendo.

VARIAÇÕES CLIMÁTICAS EM TEMPO GEOLÓGICO: O GRANDE CENÁRIO DINÂMICO


Ao examinar uma fotografia de nosso planeta tirada de um satélite, podemos hoje apreciar o contorno de florestas que no Brasil se apresentam de maneira impactante na Amazônia e na Mata Atlântica. Apesar de se discutir muito hoje em dia sobre a preservação e a conservação destas florestas, a sua dinâmica ao longo do tempo em escala geológica (milhares ou milhões de anos) é pouco conhecida, isto principalmente devido ao número relativamente pequeno de evidências para dar suporte a teorias desse tipo.
A ação do homem (ação antrópica) desde a revolução industrial, tem sido considerada um fator destrutivo preponderante em nosso planeta, pois vem causando incontáveis perdas de espécies em todos os seus biomas.
Durante milhões de anos, diariamente, nosso planeta tem sido varrido por pulsos de luz solar que aquecem a sua superfície e conseqüentemente os gases em sua atmosfera. Este fenômeno de aquecimento da atmosfera mantém a média de temperatura (hoje cerca de 16 OC) em níveis tais que, em comparação com os demais planetas e luas do Sistema Solar, a possibilidade de existência de vida como conhecemos parece existir exclusivamente Terra. Estas variações rítmicas geram padrões climáticos que são uma resultante da interação complexa de “forças” que, em última análise, determinam a existência e distribuição de todos os seres vivos na Terra. Como os padrões climáticos são determinados por mecanismos de alta complexidade e são cíclicos, os organismos vivos têm que ter a capacidade de se manter no ecossistema durante os diversos ciclos climáticos e é esta capacidade de sobrevivência aos múltiplos ciclos climáticos que determina o grau de adaptação de uma dada espécie.
Ao longo do tempo geológico, as plantas passaram por períodos de grandes mudanças que devem afetar fortemente populações inteiras bem como colocado a própria espécie em perigo. Por exemplo, a cada intervalo de cerca de 100 mil anos, a Terra passa por um período de grande queda na temperatura média, período este chamado de glaciação. Estas variações acabam por determinar a capacidade adaptativa das espécies ao sistema como um todo, inclusive quando considerado em sua dimensão temporal. Em outras palavras, as variações climáticas constituem um cenário dinâmico no qual indivíduos, populações, espécies, comunidades e ecossitemas exercem seus papeis ao longo do tempo geológico.
Na frase anterior, começamos nosso exame a partir dos indivíduos, mas temos que nos lembrar que estes são compostos de órgãos, células e moléculas. Porém, para que indivíduo continue existindo, este conjunto tem que responder harmonicamente às variações específicas ao clima num dado momento. Se a resposta não for harmônica, o indivíduo deixa de existir e aquela “tentativa” fracassa.

Examinemos agora em maior detalhe o que seria esta "tentativa".

Para facilitar a discussão vou atribuir um peso de desenho (design) ao conceito de espécie. Assim, neste conceito, uma espécie seria um conjunto de ações coordenadas de genes que formam um conjunto de indivíduos capazes de se reproduzir. Ao se reproduzirem, os indivíduos geram descendentes que apresentam variações em relação ao seu próprio desenho e se considerarmos a espécie como um todo durante um grande período geológico é como se olhássemos para um ponto central com variações ao seu redor (Figura 1).



Figura 1. O quadro cinza ao fundo representa o cenário temporal em curso (milhões de anos, por exemplo). A esquerda, uma espécie (círculo branco) e as variações de seu desenho (círculo cinza esverdeado) sofre alterações em seu desenho de tal forma a alterar a posição do desenho básico inicial (círculo branco a direita) em relação ao limites de variação do desenho que ainda são capazes de se reproduzirem (mancha verde). Note que o desenho sempre está em uma espécie de “centro de gravidade” do desenho que corresponde à espécie.
Se ao invés de uma figura estática como a Figura 1, elaborássemos uma simulação em forma de filme, veríamos os limites do desenho se alterando e adquirindo formas múltiplas e provavelmente bastante variáveis ao longo dos milhões de anos. Tudo isso em um cenário climático de fundo (também variável) que sustenta ou permite a existência daquele desenho. Em outras palavras, caso as variações climáticas sejam muito drásticas, o desenho pode simplesmente deixar de existir. Se forem muito brandas, é possível que os limites de variação do desenho se tornem mais restritos, ou seja, próximos ao círculo central do desenho.

"Ripples in the pool"

Respostas dos genes às variações climáticas e a manutenção dos desenhos com maior grau de previsibilidade é que permite a existência de um dado desenho (na forma de espécie) por um longo tempo, mesmo atravessando alterações climáticas muito drásticas.
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